Começa cedo, tão cedo que já não sabes quando começou. Um sorriso de aprovação, um elogio bem colocado, uma sensação breve de pertença. O corpo aprende antes da mente: isto é seguro, isto é aceite, isto é amor.
E a partir daí, sem regras escritas e sem contrato assinado, começas a jogar um jogo silencioso: não desiludir. Ser a filha fácil. A aluna responsável. A amiga presente. A colega fiável. A mulher que aguenta.
Cada papel vem com expectativas subtis, e tu cumpres todas com tal naturalidade que deixas de perceber que estás a desempenhar um papel. Até ao dia em que olhas para trás e percebes que passaram anos. Muitos anos.
Não foi erro. Foi competência. Fizeste tudo "bem". O problema é que esse "bem" nunca foi definido por ti. Foi moldado pelas necessidades alheias, pelas recompensas externas, pela tranquilidade dos outros.
Mas há algo que acontece quando reconheces isto. Não é raiva, não é culpa — é clareza. É perceber que há uma diferença entre ser amada e ser necessária. E que mereces as duas coisas, mas não ao preço de ti mesma.
Agradar tornou-se automático. Perguntar "o que quero?" começou a soar desconfortável, quase egoísta. As escolhas deixaram de ser escolhas e passaram a ser adaptações. Tudo atravessado pela mesma pergunta silenciosa: o que vão pensar de mim?
Imagina, por um momento, que essa pergunta deixava de existir. Imagina que podias escolher sem justificar. Dizer não sem culpa. Querer algo só porque o queres. Não é egoísmo — é inteireza.
O dia em que deixas de agradar não é um momento cinemático. É um processo gentil e gradual. Pequenos "nãos" ditos com coragem. Escolhas feitas com atenção. Limites colocados com amor — amor por ti. Cada passo prova a mesma coisa: o mundo não colapsa quando te escolhes.
É assim que começa uma vida mais tua. Não necessariamente mais fácil. Nem mais aplaudida. Mas habitável. Inteira. Sustentável.
Anos a agradar é muito tempo. Mas nunca é tarde para começar a escolher.
